Texto muitíssimo interessante da revista Nosso Pará

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Tanto para os catequistas quanto para os colonizadores que aqui chegaram nos primeiros tempos e, ao longo da era colonial, a figura do pajé sempre esteve envolvida em mistério e temor.
Aos padres, por exemplo, a figura do velho índio beirava o repugnante. Era impossível, ou quase, àqueles, olhar o pajé de outra maneira. Um médico que curava através do sopro e da sucção; profetizava, após a ingerência de bebidas especiais, acompanhado na inspiração de pós considerados sagrados e do fumo de charutos “diferentes”.
Além disso, para o bom desempenho de suas funções, dançava estranhamento, aos pulos, o corpo tatuado e pintado, em convulsões; a fala transformada em grunhidos ou mesmo em gritos, a cara retorcida, em esgares.
O jesuíta, de formação totalmente clássica, só poderia mesmo compará-lo e o fez às pitonisas e sibilas romanas, recadeiras dos deuses supremos daquele povo que, igualmente, jejuavam antes dos rituais, mascavam folhas de louro e, no instante em que os deuses, nelas, se manifestavam, entravam em convulsões, uivando como feras para melhor atender aos desígnios dos numes.
Além disso, a tribo obedecia-lhe, cegamente, pois, sob determinados pontos de vista, a autoridade do pajé sobrepujava a dos tuxáuas e, assim, cercado de tanto poder, um sacerdote, a bem dizer, de quem? Certamente, do Demônio. Destarte, lá se foi o pobre pajé encabeçar o “índex” da Santa Madre Igreja, nestes pagos.
É sabido e notório que o branco, salvo raras e honrosas exceções, costuma analisar elementos de outras raças, mormente em seus aspectos religiosos e, por extensão, míticos, a partir dos seus dogmas, moral, costumes e valores.
Não nos referimos a estudiosos e pesquisadores, mas àqueles que, no nosso caso, se limitaram a observar e a relatar de acordo com as suas próprias concepções e padrões de comportamento, de que natureza fossem. O resultado não poderia ser outro: desastroso porque falho, inverídico, fantasioso. E assim permaneceu por muito tempo.
A nosso ver, para que possamos bem compreender a alma de um povo, em suas diversas nuances, é mister, pelo menos, além de convivermos com ele, situarmo-nos dentro de sua óptica de vida e não da nossa. Relatar, escrever sobre o que, verdadeiramente, é e não sobre o que desejamos ou pensamos que seja, por muito que tudo esteja em desacordo com o que acreditamos pelo fato de assim nos terem ensinados e termos aceitado e continuarmos a aceitar, no decorrer de nossa existência como correto, absolutamente expressivo e impossível de sofrer qualquer tipo de questionamento.
Respeitar um povo, sua religião e filosofias, vai muito mais além da projeção de consciência de um ou mais grupo de indivíduos. O que, para alguns pode ser desconcertante, para outros é evolução, consecução e, certamente, realidade esclarecedora conciliando seres humanos com os mistérios mais profundos e mais sagrados de sua cultura. Em outras palavras, respeitar-se a cultura alheia, na sua essência, sem a pretensão de modificá-la ou alterá-la com qualquer parcela, por mínima que seja, de conhecimento ou de experiências próprias.
Infelizmente, os vitoriosos crêem que os vencidos nada podem nos ensinar, apenas porque foram derrotados. Melhor seria que os enxergássemos como um profundo manancial de sabedoria a ser compartilhada.
Durante muito tempo, o nosso índio e, por extensão, o pajé foram objeto de observação concernente a valores, espírito e mentalidade européia.
Hoje, felizmente, a visão é outra e o pajé é um ser que deve merecer o nosso maior respeito.
O antropólogo australiano A.P. Elkin (Aboriginal Men of High Degree. Segunda edição. Nova Iorque; St. Martin’s Press 1977) a eles refere-se com as seguintes palavras: “…longe de serem trapaceiros, charlatães ou ignorantes, os curandeiros aborígenes são homens de alta categoria, ou seja, homens que alcançaram, na vida secreta, um grau muito mais elevado do que a maior parte dos homens adultos um passo que implica disciplina, treinamento mental, coragem e perseverança… São homens respeitáveis, quase sempre dotados de notável personalidade… eles têm uma imensa importância social, pois a saúde psicológica do grupo depende em muito da fé que seus poderes dele despertam… os vários poderes psíquicos que lhes são atribuídos não devem ser de imediato repelidos como simples magia primitiva e faz-de-conta, porque muitos deles se especializaram no trabalho da mente humana, e na influência da mente sobre o corpo e da mente sobre a mente…”
Nosso intuito, neste “O Mundo dos Encantamentos da Amazônia” é mostrar, dentro do que for possível, o que é um pajé, a sua ação e conseqüente atuação, a maneira como vive e como se conduz, na intimidade, na sua comunidade.
O pajé, hoje, encontra-se em todas as tribos: nas da mata, nas das cidades. Vive o seu dia-a-dia, como qualquer pessoa. O que o difere dos outros é o cumprimento da sua nobilíssima missão.

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Fundamentalmente, todo o conhecimento adquirido por um pajé vem através de suas próprias experiências. É claro que existem métodos cuja aprendizagem é imprescindível, a fim de que, após, sejam, convenientemente, aplicados, utilizados.
As fontes do conhecimento do pajé são várias. Aprender com as árvores ou com a morte e o renascimento são duas das principais. Enquanto há alguns que respondem de modo espontâneo ao “chamado”, outros são treinados por um mestre, por assim dizer, alguns dias, alguns meses, alguns anos. Tudo depende da predisposição do indivíduo. O certo é que a prática, que deve ser contínua e rotineira, exige além de autodisciplina, uma total dedicação.
Para um pajé há duas realidades; a comum que todos nós vivemos e a incomum, que é conseguida e vivenciada somente através de um estado alterado de consciência. Assim, o que num estado de consciência comum é mito, é lenda, no outro, isto é, no estado de consciência incomum é pura realidade. Exemplificando: em ECC, uma serpente alada, uma borboleta gigantesca, pertencem ao reino das lendas; em ECI, ambas são a mais pura realidade. “Fantasia” é uma palavra aplicada em ECC àquele que experimenta um ECI e vice-versa. Tudo depende do estado em que a pessoa se encontrar. Parece complicado para quem nunca experimentou e esta é uma das vantagens do pajé : ele percorre, livremente, esses estados de consciência. Resumindo: em ECI o pajé experimenta e realiza o que em ECC é impossível de experimentar ou realizar.
O ECI não se trata, propriamente, de um êxtase, muito menos de um transe, no estrito sentido do termo e é bem mais que, simplesmente, sonhar ou imaginar. A experiência de um pajé é positiva e ele pode, dela, sair voluntariamente e a qualquer momento, voltar a ECC.
Em suma, a pajelança, baseada nos princípios de “consciência” é aprender, pessoal e estrategicamente, e agir de acordo com essa aprendizagem.

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Há dois modos de se chegar a ECI: ingerindo-se a bebida “sagrada” que é feita das raízes de uma determinada planta e das folhas de outra ou, a melhor porque exclui o uso de alucinógenos usando-se o maracá e, em algumas culturas, também, o tambor. Estes instrumentos são básicos para se chegar a um ECI. Isso, inicialmente; depois, praticando-se, continuamente, as cantigas de poder, poderosas e imprescindíveis para o pajé, essas canções funcionam como um “gatilho” para que se consiga, em poucos minutos a, digamos, transposição do estado de consciência.
Tanto o tambor quanto o maracá produzem modificações no sistema nervoso central, ajudando o pajé a entrar em um ECI. O maracá, principalmente, estimula vias de freqüência mais elevadas no cérebro. Esse estímulo aliado ao compasso da dança (a dança é de suma importância pela necessidade de sons ritimicos serem produzidos) e ao canto “poderoso”, especial, que é entoado nessas ocasiões, ajudam o pajé a entrar em um ECI e a realizar as suas viagens no submundo ou no Mundo Superior.
Em ECI, o pajé vê tudo: não há lugar para fantasias no seu mundo; em tudo há vida, a partir do momento que ele pode “ver”.

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Para realizar seus trabalhos, máxime os de cura, o pajé depende do seu próprio poder que é sempre complementado pelos poderes do Espírito Guardião e dos Espíritos Auxiliares.
Todo pajé tem, a seu serviço, ao menos um espírito guardião. Ele pode contar ou não com a ajuda dos Espíritos Auxiliares, mas o Espírito Guardião é, por assim dizer, parte estrutural da pajelança. Esse Espírito é chamado, muitas vezes, de “amigo” e/ou de “companheiro”. Sem ele, é praticamente impossível ser-se um pajé, um xamã, um feiticeiro, um curandeiro. O Espírito Guardião é o “poder animal”, assim como os Auxiliares são o “poder vegetal”. A diferença entre um pajé e uma pessoa comum é que ele usa, ativamente, o seu guardião, quando em ECI, fazendo com que este o ajude no momento de curar pessoas. A pessoa comum sequer sabe da existência do seu guardião. Por isso, é um “des-animado”. Mas, sobre isso, falaremos linhas à frente. Além de curar, o pajé pode, igualmente, exercer a vidência e/ou a clarividência desvendando situações passadas, presentes ou futuras para os membros de sua ou de outra comunidade.
Importantíssimos para o pajé são os três reinos da natureza: o animal, o vegetal e o mineral. No primeiro é onde ele busca o seu Animal de Poder. Ao “viajar” em busca do seu Guardião, o pajé deve evitar e, principalmente, qualquer tipo de aracnídeo, de insetos perigosos e vorazes, de serpentes e de outros répteis de longas presas e também peixes cujos dentes sejam visíveis. O reconhecimento de seu animal de poder é fácil: ele aparecerá, ao pajé, no mínimo quatro vezes sob aspectos e ângulos diversos. Será uma ave, um mamífero, uma cobra, um réptil ou um peixe. O importante é que não apresentem longas presas. Pode, ser, também, um animal mitológico ou antropomórfico. Porém, nunca será um inseto. O melhor é jamais revelar, a quem quer que seja, a espécie a que pertence o seu animal de poder.
Os guardiães são sempre muito bons. Contudo, é preciso “segurá-los” através do exercício da dança e das canções de poder. Caso contrário, podem, os guardiães, tornar-se ansiosos, aflitos e desejosos de abandonar o pajé. Quando um animal de poder nos abandona, tornamo-nos “des-animados”.
Essa conexão entre o pajé e o animal é essencial, porque é através do guardião que o pajé se comunica, conecta-se com o mundo animal.
Desde os tempos primordiais, para o pajé, os animais são nossos “parentes”, como, aliás, tudo, na natureza. Lembrar que houve um tempo quando os animais “falavam” com os homens. Isto, decididamente, não é uma lenda. Em ECI, o pajé “comunica-se” com o mundo animal, através do seu guardião. Quem tem e cultua o Espírito Guardião não morre, encanta-se. A morte só ocorrerá se provier de um surto epidêmico.
A metamorfose pode ocorrer, acreditem ou não. O pajé, nesses casos, deve ter cuidado, pois evocar a totalidade de poder de um ser arquetipal (guardião) para o seu corpo, poderá destruir-lhe a forma física (do pajé). É possível chegar-se bem próximo, mas, alcançar esse influxo total de energia, é raríssimo. Há leis que impedem que tal acontecimento ocorra com regularidade. O “poder” deve ser dispensado após a ritualística; detê-lo, tornaria dificílimo, senão impossível, levar-se uma vida normal.

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As plantas atuam como Espíritos Auxiliares. Um detalhe importante: o Espírito Guardião é comum a todas as pessoas que devem fazer o possível para não perdê-lo, contudo, as plantas são prerrogativas dos pajés. Somente eles possuem esses Espíritos Auxiliares. Essas plantas devem ser selvagens. Plantas “domésticas” (tanto quanto os animais) perderam o poder preciso para ajudar o pajé.
A dificuldade de retirar uma “energia intrusa” está em que a sucção é feita de dentro para fora, do paciente, nos três planos: mental, físico e emocional. E essa energia (doença) aparece, especificamente, como uma aranha, uma vespa, um escorpião ou similares. No momento da sucção o pajé tem por obrigação alertar e orientar os seus espíritos auxiliares para que o ajudem na empreitada. Todavia, esse trabalho só alcançará o devido sucesso se o pajé tiver pelo menos dois “auxiliares” que possuam a mesma natureza dos espíritos intrusos que ele “viu” no doente. Em ECI o corpo do paciente, para o pajé, torna-se transparente tal um vidro. Esse alerta e essa orientação são dados aos “auxiliares” através de uma “canção de poder”.
O pajé, então, começa a sugar até que o doente fique “limpo”. A energia intrusa deve ser colocada numa vasilha com areia, devendo esse vasilhame, ao término da atuação, ser levado para bem longe, a modo não contaminar a mais ninguém. É difícil de acontecer, contudo, todo o cuidado deve tomar o pajé para que a “coisa” sugada não lhe atravesse boca e garganta e vá em direção ao seu estômago. Se tal suceder, o que é raro, ele deve procurar, imediatamente, outro pajé, experto em sucção, para livrá-lo dessa energia.
Normalmente, uma pessoa invadida por energia intrusa sente o interior do seu corpo sendo “comido”, “pinicado” por elas. Por isso, como já se disse, insetos vorazes e répteis e peixes de presas longas, jamais serão um guardião. Eles são “maus”. Eles são as doenças materializadas.
Uma boa armadilha para pegar “energias intrusas” é o fumo. Elas gostam e são atraídas pelo fumo. Eis a razão dos charutos de tauari. O pajé sopra formando “laços de fumo” para removê-las de uma pessoa enferma. O fumo também serve para prevenir a saúde ou “limpar” as pessoas dessa funesta influência.
As vezes, o pajé realiza uma técnica que a moderna psicanálise chama de “contratransferência”, isto é, ela “puxa”, para dentro de si, a doença que está atingindo outra pessoa e, depois, a expulsa, usando as mãos com movimentos para fora e para o espaço. É um processo de cura difícil porque o corpo do pajé projeta-se para frente, para trás e para os lados, no estremecimentos das dores e dos espasmos.
A face importante do poder de um pajé é quando procura saber se poderá praticar a cura ou não. Consulta os três reinos da natureza, através dos guardiães e dos auxiliares. Num certo momento do ritua, o pajé “vê” a cor do rosto da pessoa. Se o rosto estiver modificado em sua aparência e o azul alastrar-se em toda a extensão da pele, o pajé sabe que nada mais poderá fazer. A morte travou o seu poder dele.

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Poderosa é a bolsa do pajé onde ele guarda seus objetos de poder. É algo muito pessoal que somente é exibido em ocasiões muito especiais. Os objetos de poder podem ser quaisquer que lhe forem necessários: pedras, ossos, folhas, etc. As pedras, não importa a natureza, são preciosas, pelas histórias que contam. Saber “ver-a-pedra” pode dar, a qualquer pessoa, a solução de um problema grave se ela souber traduzir as “mensagens” existentes na sua superfície, mensagens que as pedras, criaturas do reino mineral, passam há milênios a todos, abrangentemente. O mais importante nesses objetos de poder é que eles são mnemônicos e quando o pajé os manipula eles reacendem, em sua memória, as “experiências” com as quais se relacionam.

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Estas são apenas algumas “partes”, por assim dizer, da grande missão do pajé. Há outras bem mais difíceis e que exigem grande prática. Importante para um pajé é sentir que as pessoas estão bem, felizes e harmonizadas.
No mais, somos pessoas comuns como tantas que nos rodeiam, no ir e vir do cotidiano. O que nos torna diferentes é o grande amor e o maior respeito que nutrimos pela Mãe Natureza, a Grande Mãe, a CY dos viventes. Como já nos referimos, anteriormente, Charles Darwin ainda não era nascido e já considerávamos não só os macacos, mas os animais e tudo o que nela existe, nossos “parentes”.
Para nós, uma árvore é um “ser vivo” e não, simplesmente, a perspectiva de uma dúzia de tábua. Todo animal mamíferos, aves, répteis e peixes é nosso irmão e não apenas a possibilidade de um assado para o almoço ou para o jantar.
Antes, éramos os “secretários” do Tinhoso e, perdidas foram as contas das vezes que nossos corpos sucumbiram nos horrores das fogueiras e de outros tormentos similares.
Hoje, estamos aqui, para ensinar a todos essa antiga herança, esse legado sacratíssimo que, por muitos séculos foi separado de tantos por força da intolerância, do fanatismo e da ignorância dos homens.