Um assunto bastante debatido na Umbanda é sobre a figura de Jesus, o Cristo, dentro da religião.  Considerando que a Umbanda tem suas raízes no Candomblé, Cristianismo Católico, Espiritismo e vários cultos indígenas-brasileiros é natural observar vertentes que pendam mais para um dos lados, gerando assim debates sobre a validade de se considerar a presença Crística dentro da religião.  Lembro que todos devem ser respeitados; não estamos aqui para julgar ou apontar “qual Umbanda é a mais correta”.  Somos todos irmãos e as eventuais diferenças dogmáticas servem para nos unir e completar, jamais devem ser motivo de separação.

Abaixo, um trecho interessante sobre o assunto retirado do livro Lições de Umbanda e Quimbanda na palavra de um Preto Velho, de W.W. da Matta e Silva.

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Cícero: – Viva Deus, meu bom “preto-velho”, como agradeço-lhe isso, pois quando li “Umbanda de Todos Nós” meditei seriamente sobre um trecho que vou citar: “Devemos deixar patente que as Entidades da Umbanda, além de todo o exposto, dão, como “pão de cada dia”, a mesma doutrina, os mesmos princípios morais que norteiam os Evangelhos do Cristo, bebidos nas primitivas fontes, onde foram os primeiros a dessedentarem-se”.

Preto-velho: —Correto, filho. Para que se dê ou se ensine a pura doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é imprescindível que se tenham na mão os livros atribuídos a Ele, citando trecho por trecho, capítulo por capítulo. Sei que esses Evangelhos, escritos por terceiros, ou seja, segundo Marcos, Matheus, Lucas, etc., surgiram dezenas de anos após a passagem do Cristo pelo planeta Terra e estão cheios do que chamam de contradições, interpolações e mesmo de adaptações segundo as conveniências religiosas da época e das que sucederam.

No entanto, “preto-velho” respeita e prega o respeito aos citados Evangelhos, mas prefere ensinar deles aquelas regras ou princípios morais-espirituais que realmente traduzem a Palavra do Cristo, porque foram estabelecidos ou ensinados por Ele mesmo, desde que se iniciou o 5º ciclo cármico (Nota – Ver o conceito oculto relacionado a esse assunto no capítulo 1º [das Hierarquias-Constituídas] da obra “Sua Eterna Doutrina”, do autor).

Sempre existiram, enfim, nas antiqüíssimas “Academias” ou ditos como “Colégios de Deus”, praticamente caídos no esquecimento pelos véus da História ou mesmo da chamada tradição iniciática.

Em suma: os preceitos fundamentais do Cristo-Jesus, que são as leis eternas de Deus-Pai, já tinham sido implantados e podem ser até identificados, em sua essência ou natureza, nos ensinamentos contidos nas obras sagrados de vários povos ou raças, milhares de milhares de anos antes que surgissem os Evangelhos e mesmo a Bíblia.

A doutrina de Jesus, tão antiga quanto as Eternas Verdades, jamais foi privilégio ou monopólio de uma religião ou de uma raça. Ela sempre foi relevada, em todos os tempos, de todos os modos, pois é infantil conceber-se que, somente há 2.000 anos, essa doutrina tivesse surgido, com o meigo Jesus, que teve o cuidado de afirmar não vir ab-rogar a Lei, e sim, confirmá-la… E ainda disse mais: – “a minha doutrina não é minha, mas Daquele que me enviou” (João, VII:16).

Dos Evangelhos, então, segundo aqueles que os escreveram e que deram margem a tantas dúvidas ou interpretações quanto ao sentido ou autenticidade disso ou daquilo, surgindo até cisões – oh! filho meu – é inegável, é incontestável a moral crística. Não seria necessário repisarem tanto esses Evangelhos, se todos quisessem abrigar lentamente em seu coração o “amai-vos uns aos outros tanto quanto eu vos amei”

Nisso está contida a suprema-moral e o verdadeiro caminho. Devo assinalar, todavia, e recomendar para que se ensine, lembrando, tanto quanto possível, a beleza espiritual e a sublime humildade do Sermão da Montanha e sobre o qual todos os umbandistas sinceros precisam meditar. Ei-lo:

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos Céus;

Bem aventurados os que choram, porque eles serão consolados;

Bem aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles alcançarão misericórdia;

Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados de filhos de Deus;

Bem-aventurados os que sofrem perseguição, por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;

Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós, por minha causa (Matheus, 5,6,7).

 E ainda: “Não façais a outrem aquilo que não quereis que vos façam…”, “Perdoai 70 vezes 7”, “Fora da Caridade, não há salvação”.

Preto-velho acha, “zi-cerô”, que isso é a essência fundamental de tudo. É o bastante. Encerra o todo. Quanto ao mais, são variações. E são esses preceitos morais-espirituais, que os Guias e Protetores – esses “caboclos e pretos-velhos”, vêm ensinando, nas adaptações simples e diretas, criando imagens e exemplos que possam ser impressos vivamente na mentalidade dos que ainda custam a absorver até o sentido simples da letra, quanto mais o sentido oculto ou profundo.

Pai-preto aconselha a se fugir, tanto quanto possível, dessa repetição, incessante, quase mecânica, incisiva, comumente empregada por aqueles que pregam e doutrinam. Muitos o fazem, quase sempre, de forma contundente, como a exigir que a natureza espiritual dos indivíduos dê saltos repentinos no entendimento…Não!  A maioria das criaturas está situada em certos graus de entendimento ou de alcance, cuja fórmula absorvível de doutriná-la tem que sair de um “figurino”. Tem que haver uma introdução, uma adaptação, que dependerá de um trabalho psicológico a ser feito com muita paciência e tolerância.

E é assim, “zi-cerô”, que nós fazemos, nós, espíritos que militamos na Umbanda, procuramos introduzir, de mil formas, esses princípios essenciais na mentalidade de nossos “filhos de terreiro”, sempre que temos oportunidade, sob a forma de um conselho, de uma advertência, de um exemplo qualquer etc.

Quando essa coletividade umbandista atingir certa maturidade espiritual, por certo que os Evangelhos, assim como outras obras, serão comentados sem os véus e sem as humanas interpretações…

Todavia, devo ressalvar que existem alguns terreiros, nos quais já começaram a fazer isso para os mais adiantados. Tudo deve ser pautado de acordo com o grau de entendimento das criaturas…

Cícero: – Muito bem, “Pai-preto”… Realmente, esses são os preceitos evangélicos que enfeixam tudo. Fora deles não há salvação, porque apontam o caminho da evolução, pela compreensão das leis do Pai, por intermédio de Jesus – o Oxalá de nossa Umbanda.

Preto-velho: – Isso mesmo, filho… Penso que você interpretou bem a questão que expus. Agora, resta-me definir melhor a posição de Jesus, em face do conceito genuinamente umbandista…

Creio e ensino que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Regente Superior, cármico, da Humanidade – digamos melhor, de todos os seres encarnados e desencarnados, que têm no planeta Terra seu “campo experimental”, evolutivo…

Está em Suas divinas mãos o leme do destino dessa mesma Humanidade que está entrando no seu 5º Ciclo Cármico. Para isso, Ele veio relevar essa Regência, diretamente, quando, há 2.000 anos, se fez identificar como Jesus, testemunhando pelo sacrifício da cruz, toda sublimidade, toda renúncia, todo amor do grau crístico que Lhe é próprio.

Existem, “zi-cerô tantas interpretações sobre a individualidade do Cristo-Jesus, quantos são os entendimentos nas Escolas filosóficas, nas Religiões, etc. De um lado se diz que o Cristo se apresentou na Terra, em “corpo fluídico”; de outro, que encarnou mesmo, num corpo físico (o de Jesus – filho de Maria); de mais outro, que o Jesus era, apenas, o médium do Cristo, assim como outros Profetas, no passado, também foram médiuns diretos seus; de mais outro lado ainda, se afirma que Ele sempre reencarnou nos diferentes ciclos cármicos de uma raça ou de outra, a fim de relembrar a Lei do Pai, de vez em quando completamente postergada. E ainda se diz, também, que o Jesus teve carma-evolutivo, igual ao nosso, passando por todas as experiências as quais nós vamos passando, etc., até quando atingiu o seu grau crístico (ou cristófilo, segundo outros). E ainda não é só. Também se prega que Ele é o filho único, exclusivo, do Pai-Eterno… como se o Pai o “criasse” como uma exceção suprema, sobre todos os demais Seres Espirituais Superiores ou Potências Divinas…

No entanto, este “preto-velho” reafirma e ensina o seguinte: – o Cristo, identificado como Jesus – filho de Maria, jamais teve carma-evolutivo ou condicionado, conforma o nosso, que está ligado à Natureza, à roda das sucessivas encarnações…

Como se entender isso melhor? Assim… Aceito a existência de Duas Linhas de Ascensão ou de Evolução para os Espíritos. Uma, independe de matéria ou energia-massa. Esta é a Linha de Evolução Original. Tem sua ação nas infinitas regiões do espaço cósmico (infinito e ilimitado), onde a sua natureza é o neutro,  isto é, o puro espaço-cósmico, vazio de galáxias, de sistemas planetários, ou melhor, onde não existe um só corpúsculo de energia natural, própria ao que se entende como energia cósmica, na Física, etc.

Nestas regiões, os Seres espirituais seguem a sua Linha de Ascensão ou de Evolução, dentro, naturalmente, de um ritmo próprio, com aspectos diferentes desse carma-humano. Essa Linha Original é supervisionada pelas suas Hierarquias Constituídas.

Agora vem a segunda Linha de Evolução ou de Ascensão (diria melhor: de reascensão). Essa depende de matéria ou de energia-massa, isto é, de galáxias, de sistemas planetários, etc. Essa é a nossa Humanidade, que se aglomerou sobre o planeta Terra.

Foi da primeira Linha, que descemos, para a segunda.

Pois bem. O Cristo-Jesus, é claro, também veio da primeira porém, já com o seu grau crístico, de sua Hierarquia… Ele foi o enviado pelo Pai-Eterno, para socorrer  e guiar a nossa Humanidade – essa mesma formada pelas legiões de espíritos que no princípio das coisas (antes de se formar o planeta Terra), desceram, espontaneamente, a essa zona cósmica, onde matéria ou energia-massa tem domínio

Cícero: – Pai-preto, sendo esse assunto transcendental, podes focalizá-lo mais um pouco, para melhor clareza de meu entendimento?

Preto-velho: – Sim, posso, pois vejo que o desejas… Atenta: – Todos os espíritos que formaram essa Humanidade (encarnados e desencarnados) desceram, de livre vontade, à região ou a essa zona eletromagnética, onde, depois, se formou o atual planeta Terra, das infinitas regiões do espaço, onde não existiam e nem existem planetas ou corpos celestes, etc., já o disse: Isso porque, lá, nessas infinitas regiões, nem uma só partícula de energia, própria ou que já se distingue como da natureza-natural, tem domínio ou penetração (Nota  – ver tese científica, filosófica, em “Sua Eterna Doutrina”).

Nessas regiões – do espaço cósmico neutro – só habita uma Realidade e essa, são os Seres Espirituais, isto é, os Espíritos, em suas próprias condições de pureza, ou seja, completamente isentos de quaisquer veículos formados por essa dita energia cósmica.

Habitam, digo eu, porque é onde têm sua Linha de Ascensão Original ou seu Reino Virginal. Aí, repito, não existem veículos físicos nem astrais ou fluídicos.

No entanto, num certo instante-luz da eternidade, resolveram descer a essas citadas regiões, onde a natureza cria formas, revela qualidades, etc.

Fizeram assim, usando do livre-arbítrio, que foi a percepção própria de suas consciências, reveladas por Deus, que permitiu essa descida, em virtude de, dentro de sua infinita perfeição, jamais cercear a livre manifestação da vontade ou da idéia, que traduz afinidades virginais dos Seres espirituais…

Portanto, vendo a Sabedoria Divina que essas legiões de espíritos – que somos nós, encarnados e desencarnados de agora – tinham descido e já estavam envolvidas pela poeira atômica (que digo também como a energia uma, homogênea, matriz das demais), já sujeitas a seus turbilhões, próprios de sua natureza, já enfrentando novas condições, devido a esse contato e condições essas que desconheciam ou ignoravam antes, constatou assim que essas lições se debatiam num caos, tal a confusão que o dinamismo de suas próprias vibrações espirituais causaram por acréscimo nessa dita natureza, que hoje em dia é chamada pela ciência da Física, de energia-massa ou matéria…

Era mesmo o caos – o princípio de que nos fala a Bíblia. E foi em conseqüência disso tudo que a Sabedoria Divina ou Deus-UNO enviou, da Hierarquia Crística ou Planetária, vários ESPÍRITOS PUROS a fim de reajustar essas legiões de espíritos, que se debatiam às cegas, dentro dessa nova condição, nesse caos, que seria, como foi e é, um novo “modus-operandi” ou “campo experimental”, bem como, pela necessidade que surgiu de reorganizá-las (a essas legiões), ainda dentro de um novo carma.

Dentre esses Espíritos Puros se encontrava o Cristo-Jesus, nosso Regente máximo, nesse 5º Ciclo Cármico (Nota – segundo várias Escolas iniciáticas, estamos entrando nesse 5º Ciclo), conforme já disse antes.

Nesse Ciclo se darão profundas transformações nessa Humanidade, sob todos os aspectos…

E que estas elucidações deste “preto-velho” não te deixem muito perplexo, oh! “zi-cerô”! Olha! Quando essa atual Humanidade estiver no meio desse 5º Ciclo, daqui a milhares e milhares de anos, estará em tal estado de adiantamento espiritual que as concepções de hoje, as mais profundas é claro, lhe parecerão tão infantis, que não há exemplos a dar, a fim de comparar. Como exemplo de relação, fica sabendo que existem planetas habitados por Seres Espirituais em tal estado de adiantamento, em tal grau de evolução que, para eles, as nossas mais altas aquisições filosóficas, científicas, religiosas, sociais, etc., são etapas superadas há milhões de anos e que a lembrança disso tudo apenas consta em seus arquivos astrais. É preciso considerarmos como justa verdade, já firmada por entidades luminares de outras correntes, que o nosso planeta Terra, isto é, sua Humanidade, é uma das mais atrasadas, sob todos os aspectos, dentro desse ilimitado panorama cósmico espiritual…

Então, “zi-cerô”, de acordo com tudo o que foi dito, é fácil compreender por que, na Umbanda, JESUS – o nosso meigo Oxalá, é considerado como o Deus do planeta Terra.

Todas as Entidades, trabalhadores espirituais de sua seara, não importa sob que forma ou aspecto, trabalham, incansavelmente, para implantar suas leis, sua doutrina no coração dos filhos-de-fé…

Tende definido, portanto, essa questão, dentro de certos limites, “Pai-preto” pede, neste instante, humildemente, um “agô” para manifestar seu pensamento sobre o Pai Eterno…

“Preto-velho” concebe o Pai-Eterno como a Suprema e Imaculada Realidade, única que paira ou que está acima de todas as outras realidades. Concebe ainda que essa Realidade-Una, que se diz como Deus, é o Amor-Consciência e inteligência Sublimados que se manifestam como totalidade, como um Todo, do qual participamos, por via dessa mesma manifestação em nós, quando nos revelou – pela percepção consciente de nós mesmos, que também temos esses mesmos Princípios (amor-consciência-inteligência), como condições intrínsecas de nossa razão de ser ou de existirmos como espíritos, encarnados e desencarnados. A Ligação de Deus em cada um de nós, portanto, encontra-se, invariavelmente, através desses princípios citados.

Isso porém, não implica em que o Deus participe diretamente em nosso livrearbítrio, quanto ao uso e abuso que fizermos desse Poder ou dessa faculdade, como manifestação consciente de nossa vontade, pois, se assim participasse diretamente, teríamos de atribuir a Ele a paternidade desse livre-arbítrio e conseqüentemente, os erros que cometêssemos por força desse poder ou dessa faculdade, negariam a onisciência do outorgante.

Assim, não é, como induz o sentido comum ou vulgar, embora a questão seja altamente filosófica, profunda ou complexa. O chamado livre-arbítrio é condição própria à Consciência, à Inteligência do Espírito. Não nos foi dado nem “criado” por acréscimo. Todavia não tenho alcance para definir a sua origem real porque ela é tão eterna quanto nós mesmos. E quem pode definir ou alcançar a origem da eternidade? Somente o Pai-Eterno.

“Zi-cerô”, filho meu, não se assuste: “preto-velho” terá que filosofar alto assim, de quando em vez, pois não posso simplificar muito essas lições, porque assim, estarei limitando muito o pensamento.

Cícero: – Bem, bem, meu bom “preto-velho”, confesso que sua explicação é profunda e noto que não empregou o termo criar, tão usado para a assimilações comuns nesses assuntos. Tem alguma razão para isso.

Preto-velho: – Sim. Reconheço que muitos dos ensinamentos que estou dando e vou dar fogem bastante do que você qualifica de assimilação comuns.

Deve compreender que em certos esclarecimentos importantes, não devo nem posso vulgarizá-los. De fato, o termo criar, conforme as interpretações religiosas ou comuns e ainda a par com o sentido que os dicionários lhe emprestam, prende o pensamento a um círculo de penetrações limitadas. Age sempre como uma espécie de atemorizador, sobre o qual todos se esquivam, têm medo de raciocinar, porque pensam que estão ofendendo a Deus, quando duvidam da elasticidade ou da pobreza do termo criar, que se traduz como extrair do nada e se vê que o nada é o não-existente, só existe nas letras desses dois termos.

Toda manifestação do pensamento, baseada no sentido comum ou religioso, que pretendem emprestar a esses termos criar, do nada, do não-existente, cai num vazio, cai no decantado “mistério” das religiões, o qual parece que foi empregado para rechaçar os raciocínios. É, ou não, contundir o pensamento, limitando-o sempre a esse vazio, do não-existente? É, por isso que não uso o termo criar, porque ele nos leva a isso e mesmo porque estamos com a afirmação atribuída a Jesus: “Buscai a verdade que ela vos libertará, Libertar de quê? Dos entendimentos amarrados, cerceados, acorrentados a termos convencionais, humanos…