O estudo e meditação sobre as lendas dos Orixás é um exercício muito engrandecedor e válido, desde que não sejam interpretadas ao pé da letra.  São parábolas, carregadas de ensinamentos.    Escolhi aqui uma lenda de Ogum que tem muito a nos acrescentar.  Primeiro o texto, depois um vídeo do youtube (bem feinho, mas válido) da mesma lenda e por fim uma breve análise.

Ogum mata seus súditos e é transformado em Orixá.

“Ogum, filho de Odudua, sempre guerreava, trazendo o fruto da vitória para o reino de seu pai. Amante da liberdade das aventuras amorosas, foi com uma mulher chamada Ojá que Ogum teve seu filho Oxossi. Depois amou Oiá, Oxum e Obá, as três mulheres de seu rival, Xangô. Ogum seguiu lutando e tomou para si a coroa de Irê, que na época era composto de sete aldeias. Era conhecido como o Onirê, o rei de Irê, deixando depois o trono para seu próprio filho.
Ogum-Sao_JorgeOgum era rei de Irê, Oni Ire, Ogum Onirê. Ogum usava a coroa sem franjas chamada acorô. Por isso também era chamado de Ogum Alacorô. Conta-se que, tendo partido para a guerra, Ogum retornou a Ire depois de muito tempo. Chegou num dia em que se realizava um ritual sagrado. A cerimônia exigia a guarda do silêncio total. Ninguém podia falar com ninguém. Ninguém podia dirigir o olhar para ninguém.
Ogum sentia sede e fome, mas ninguém o atendia. Ninguém o ouvia, ninguém falava com ele. Ogum pensou que não havia sido reconhecido. Ogum sentiu-se desprezado. Depois de ter vencido a guerra, sua cidade não o recebia. Ele, o rei de Ire! Não reconhecido por sua própria gente! Humilhado e enfurecido, Ogum, com sua espada em punho, pôs a destruir tudo e a todos. Cortou a cabeça de seus súditos. Ogum lavou-se com sangue. Ogum estava vingado. Então a cerimônia religiosa terminou e com ela a imposição de silêncio foi suspensa.
Imediatamente o filho de Ogum, acompanhado por um grupo de súditos, ilustres homens salvos da matança, veio à procura do pai. Eles renderam as homenagens devidas ao rei e ao grande guerreiro Ogum. Saciaram sua fome e sua sede. Vestiram Ogum com roupas novas, cantaram e dançaram para ele. Mas Ogum estava inconsolável. Havia matado os habitantes de sua cidade. Não se dera conta das regras de uma cerimônia tão importante para todo o reino. Ogum sentia que já não podia ser o rei. E Ogum estava arrependido de sua intolerância, envergonhado por tamanha precipitação. Ogum fustigou-se dia e noite em autopunição.
Não tinha medida o seu tormento, nem havia possibilidade de autocompaixão. Ogum então enfiou sua espada no chão e num átimo de segundo a terra se abriu e ele foi tragado solo abaixo. Ogum estava no Orum, o céu dos deuses. Não era mais humano. Tornara-se um orixá.”

 

Kaballah_OgumOgum, assim como todos os “Deuses da Guerra” de todas as mitologias, na Cabala judaica está associado à esfera de Geburah. Quarta sephira da árvore da vida, esta esfera representa a Vontade, a Força, a Severidade. Representa o desejo de contenção e de questionador de impulsos. Canaliza sua energia por meio de objetivos, com o intuito de superar obstáculos e transformar a própria natureza. Suas virtudes são a Energia e a Coragem; seus vícios, a Crueldade e a Destruição. Em outras palavras, quando esta energia está equilibrada significa a Diligência; quando desequilibrada, a Ira.

Título: Geburah, Força, Severidade.

Imagem Mágica: Um poderoso guerreiro em seu carro.

Texto Yetzirático: Inteligencia Radical.

Títulos Conferidos a Geburah: Din (justiça); Pachad (medo).

Virtude: Energia, coragem.

Vício: Crueldade, destruição.

Marcelo Deldebbio em sua palestra intitulada “A Kabbalah e os deuses de todas as religiões” deu um exemplo bastante fácil de entender:

A gente pode conceber essa energia como a diferença entre uma bomba e um foguete. A bomba é uma energia descontrolada que explode e destrói tudo. Se você conseguir dar foco para essa energia ela vira um foguete que te impulsiona até o objetivo. Então, simbolicamente, é essa energia de poder.”

A lenda apresentada aqui é um conto antigo do Candomblé africano que, totalmente alheio a Árvore da Vida e suas sephiras, explica as faces dessa energia, em equilíbrio e desequilíbrio, representadas por Ogum. As lendas de Ogum remetem ao conquistador, realizador, como por exemplo quando (em uma outra lenda) quando Ogum (também patrono da agricultura) cria as ferramentas para que Ocô possa plantar e alimentar seu reino. Ogum não é o que alimenta a família; é a vontade e iniciativa que possibilita isso. Por isso, em muitos estudos sobre os arquétipos dos Orixás, coloca-se como uma das características dos filhos de Ogum o prazer pela conquista, mas não pelo proveito: “Os filhos de Ogum perseguem tenazmente um objetivo: quando o atingem, imediatamente o largam e parte em procura de outro.”

Mas para que essa energia seja realmente realizadora e não destruidora, precisa ser controlada, aprendida e focada.

Life_of_Pi_2012_PosterDentro de um universo de observações e interpretações possíveis retiradas do fantástico filme “As aventuras de Pi” (The life of Pi) existe referência a essa energia e ao seu controle.

Logo no início do filme, quando Pi tenta alimentar o tigre Richard Parker com sua própria mão, fascinado pela beleza do animal, seu pai aparece e o impede, e se segue o diálogo:

Pai: “Acha que esse tigre é um amigo? Ele é um animal, não um boneco!”

Pi retruca, chorando: “Animais têm alma, eu vi nos olhos dele”

Pai:  “Animais não pensam como nós… Quando olha nos olhos dele você vê suas emoções refletindo de volta, nada mais!”

Numa análise muito particular minha, eu vejo o Pai do garoto lhe ensinado sobre os perigos da ira.  Vejo muitas pessoas que se deliciam ao constatar que conseguem resultados apenas impondo sua vontade, muitas vezes pela força, sem saber que essa mesma energia pode ser auto-destrutiva.

Todos que assistiram ao filme sabem que o tigre representou Pi, ou melhor, sua força no filme.  No início, ele estava escondido sob a lona do barco, aparecendo nos momentos de medo e de raiva: quando a hiena matou a zebra, o orangotango e quando ameaçou sua própria vida.  Nesses momentos, o tigre foi a ira pura, adormecida dentro de nós que é facilmente despertada nessas situações.  Nesse caso significou a sobrevivência de Pi diante de um assassino que dividia o barco com ele.  Então, ele a conhece, vê seus efeitos e tem que viver com isso.  Agora, é uma questão de sobreviver sozinho e a deriva no meio do oceano.  Para tanto, ele precisa enfrentar situações que não vivera antes como tirar a vida de um outro ser vivo (pescar) para se alimentar; outro problema pois ele era vegetariano.  Essa atitude, que foi a diferença entre viver ou morrer, precisou de uma grande fonte de energia, coragem e iniciativa: Ogum…Geburah.

“Sem Richard Parker, eu estaria morto agora.”

Mas essa energia não é tão simples assim, só despertá-la e tudo certo.  Precisa ser controlada.  Precisa ser dominada.  Ela pode te salvar, simbolizada pelo tigre enfrentando a hiena ou ser um grande problema, simbolizada pelo mesmo tigre tentando o atacar.

Compreender e viver a energia de Ogum é assim.  Precisa ser dirigida, com foco, e se tornará em determinação realizadora, em diligência, e então conseguiremos grandes feitos em nossas vidas.  Fé e vontade.  Assim Ogum foi um grande guerreiro conquistador, o abridor de caminhos.  Porém, como ensinado nessa lenda, a mesma energia sem controle vai se transformar na ira, numa bomba que explode e destrói tudo.  Na lenda, quando Ogum compreendeu isso, dominou Geburah, se tornou Orixá!  E isso é o Orixá Ogum, diligência!

Ser filho de Ogum é ter uma ligação muito íntima com essa energia.  É ter aptidão para vencer desafios e realizar grandes feitos.  Mas também significa muito a aprender!  É preciso transformar a “bomba” num “foguete” e isso não é tarefa fácil.  Não se faz trabalhando simplesmente em Geburah, mas desenvolvendo também as virtudes de todos os outros Orixás.

Equilíbrio

Kaballah_Ogum_OxossiEm outra lenda, Ogum é relatado como irmão de Oxóssi que, não por acaso, na árvore da vida está relacionado à Chesed, esfera “irmã”, misericórdia e compaixão, necessária para equilibrar Geburah. Ogum é um feroz guerreiro conquistador, mas segundo a lenda, foi Oxóssi (caça) e Ocô (agricultura) que apresentaram necessidades para que Ogum trouxesse desenvolvimento aos homens.  E é assim que essa energia deve ser utilizada, em seu mais perfeito equilíbrio, com direção para nos impulsionar.

Ogum e Oxóssi

“Oxóssi é irmão de Ogum. Ogum tem pelo irmão um afeto especial. Num dia em que voltava da batalha, Ogum encontrou o irmão temeroso e sem reação, cercado de inimigos que já tinham destruído quase toda a aldeia e que estavam prestes a atingir sua família e tomar suas terras. Ogum vinha cansado de outra guerra, mas ficou irado e sedento de vingança. Procurou dentro de si mais forças para continuar lutando e partiu na direção dos inimigos. Com sua espada de ferro pelejou até o amanhecer.

Quando por fim venceu os invasores, sentou-se com o irmão e o tranqüilizou com sua proteção. Sempre que houvesse necessidade ele iria até seu encontro para auxiliá-lo. Ogum então ensinou Oxóssi a caçar, a abrir caminhos pela floresta e matas cerradas. Oxóssi aprendeu com o irmão a nobre arte da caça, sem a qual a vida é muito mais difícil. Ogum ensinou Oxóssi a defender-se por si próprio e ensinou Oxóssi a cuidar da sua gente. Agora Ogum podia voltar tranquilo para a guerra. Ogum fez de Oxóssi o provedor.”

— Esta lenda mostra claramente a Severidade agindo pela Misericórdia, mostrando que, ainda que sutilmente, ambas se equilibram.  Severidade sem Misericórdia se transforma em crueldade.  Da mesma forma, Misericórdia sem Severidade pode sufocar.

A energia dinâmica é tão necessária ao bem-estar da sociedade quanto a doçura, a caridade e a paciência. Não devemos esquecer que a dieta eliminatória que restaura a saúde, na doença, produz a doença na saúde. Jamais deveríamos exaltar as qualidades que são necessárias para compensar um excesso de força como fins em si e como meios de salvação.  Caridade em excesso é obra de um louco; paciência em excesso é o sinete de um covarde.  Necessitamos de um equilíbrio justo e sábio, que contribui para a felicidade, a saúde e franca compreensão de que sacrifícios são necessários para obtê-las. Não podemos comer o bolo a conservá-lo, seja na esfera espiritual ou em qualquer outra.

Este equilíbrio é tão sabiamente expressado pelas lendas quando apresentam Ogum e Oxóssi como irmãos!

Oxóssi é o irmão de Ogum. 

Ogum é o grande guerreiro.

Oxóssi é o grande caçador.

 

adorno_texto1

Bônus:

Ogum é o senhor do ferro para sempre.

Orixá Ocô cria a agricultura com ajuda de Ogum.
No princípio, havia um homem que se chamava Ocô, mas Ocô não fazia nada o dia todo, não havia o que fazer, simplesmente. Quando os alimentos na Terra escassearam, Olorum encarregou Ocô de fazer plantações, que plantassem inhame, pimenta, feijão e tudo mais que os homens comem.
Ocô gostou de sua missão, ficou todo orgulhosos, mas não tinha a menor idéia de como executá-la, até que viu, debaixo de uma palmeira, um rapaz que brincava na terra, com um graveto ele revolvia a terra e cavava mais fundo, Ocô quis saber o que fazia o rapaz. “Preparando a terra para plantar, para plantar as sementes que darão as plantas”, explicou o rapaz de pele reluzente.

“Que sementes, se nem plantas ainda há?”, perguntou, incrédulo, Ocô.

“Nada é impossível para Olodumare”, foi a resposta.

Começaram então a cavar juntos a terra, o graveto que usavam como ferramenta quebrou-se e passaram então a usar lascas de pedra, o trabalho, entretanto, não rendia e Ocô saiu a procura de alguma maneira mais prática.
Outro dia, quando Ocô voltou sem solução, o rapaz tinha feito fogo, protegendo-o com lascas de pedra, viram então que a pedra se derretia no fogo. A pedra líquida escorria em filetes que se solidificavam.

“Que ótimo instrumento para cavar!”, descobriu efusivamente o inventivo rapaz.

Ele pôde então usar o fogo e fazer lâminas daquela pedra, e modelar objetos cortantes e ferramentas pontiagudas.
Ele fez a enxada, a foice e fez a faca e a espada e tudo o mais que desde então o homem faz de ferro para transformar a natureza e sobreviver. O rapaz era Ogum, o orixá do ferro. Juntos resolveram a terra e plantaram e os alimentos foram abundantes.
E a humanidade aprendeu a plantar com eles, cada família fez a sua plantação, sua fazenda, e na Terra não mais se padeceu de fome, e Ocô foi festejando como Orixá Ocô, o Orixá da Fazenda, da plantação, pois fazenda é o significado do nome Ocô.
E Ogum e Orixá Ocô foram homenageados e receberam sacrifícios como os patronos da agricultura, pois eles ensinaram o homem a plantar e assim superar a escassez de alimentos e derrotar a fome.

adorno_texto1

Ogunhê meu Pai!

——————-

fontes consultadas: