Gira_Xango_2012

Quando lemos sobre Xangô, imediatamente nos vem à mente o Orixá da Justiça, descrição correta e tão repetida em milhares de textos sobre Umbanda.

Além desta, que é sua principal característica, já ouvi dos mais antigos ser Xangô o chefe da Umbanda, Orixá que sustenta a religião.  Mas os textos que encontramos a respeito, focam apenas o aspecto da justiça.  Então, ao considerarmos e relação entre os Orixás e a Kabbalah  poderemos conhecer um outro aspecto de Xangô.

Na árvore da vida, Xangô está relacionado à esfera de Binah.  Esta sephirah,  em sua descrição yetzirática¹  traz o seguinte: 

A Terceira Inteligência chama-se Inteligência Santificadora, Fundamento da Sabedoria Primordial; chama-se também Criadora da Fé. É a mãe da fé, a fonte de onde emana a fé. 

cabala_xangoMas considere que esta fé descrita acima emana da mesma fonte que é Fundamento da Sabedoria Primordial; não se trata daquela fé cega, tal como existe em muitas mentes não instruídas, fruto da disciplina de seitas carentes de consciência mística. Antes disso, podemos definir a fé como o resultado consciente de nossas experiências superconscientes aquilo que sentimos ao participar de um ritual ou mesmo em experiências muito particulares de contato com o astral mas que não pode ser traduzido em termos de consciência cerebral e, por conseqüência, nossa personalidade normal não é diretamente consciente, mas sente com grande intensidade seus efeitos, o que provoca uma mudança permanentemente em nossas reações emocionais.

Pois bem, essa emanação de fé é uma emanação de Xangô!  Um tanto estranho para se descrever o Orixá da Justiça, responsável pela sustentação da Umbanda.  Mas ele sustenta a religião através da fé verdadeira.  E por falar em sustentação…

“Xangô, Filho de Bayani e marido de Iansã, Obá e Oxum, Xangô nasceu para reinar, para ser monarca e, como Ogum, para conquistar e solidificar, cada vez mais, sua condição de rei.” (candomblé)

Então… outro título conferido à Terceira Sephirah é Khorsia, o Trono; e os anjos atribuídos a essa Sephirah chamam-se Aralim, palavra que significa também Tronos. Ora, um trono sugere essencialmente a idéia de uma base estável, um firme fundamento sobre o qual o exercitador do poder tem o seu assento e do qual não pode ser removido. É, na verdade, um bloco que suporta a ação do retrocesso de uma força, da mesma maneira que o ombro do atirador suporta o recuo do rifle.

Vamos aprofundar um pouco mais para clarear essa idéia…

Como vimos anteriormente em Ibeji a luz da Cabala, Kether/Ibeji, a primeira esfera, equivale à forma mais transcendental de Deus que podemos conceber.

Em Iansã a luz da Cabala, aprendemos que Chokmah/Iansã é o fluxo da força que emana incessantemente de Kether, porém desorganizada e desequilibrada. Chokmah é muito mais um canal do que um recipiente.

A montanha de Pedra

Enquanto a Pureza de Ibeji simboliza a Fonte Inesgotável de Energia e o Raio de Iansã simboliza o fluxo desta força, a Montanha de Pedra de Xangô é o melhor símbolo terreno desta energia tomando forma!

É Binah/Xangô que dá forma a esse fluxo de energia. Transcrevo aqui um trecho do livro Cabala Mística de Dion Fortune e depois explico onde quero chegar:

Kaballah_Xango_2“Mas voltemos a Binah. Os cabalistas afirmam que ela é emanada por Chokmah. Traduzamos essa afirmativa em outros termos. Reza uma máxima oculta – que é, como acredito, confirmada pelas pesquisas de Einstein, embora eu não tenha o conhecimento necessário para relacionar suas descobertas com as doutrinas esotéricas – que a força jamais se move numa linha reta, mas sempre numa curva tão vasta quanto o universo, retomando eventualmente, por conseguinte, ao ponto de onde proveio, mas num arco superior, visto que o universo progride continuamente. Segue-se, portanto, que a força que assim procede, dividindo-se e redividindo-se e movendo-se em ângulos tangenciais, chegará eventualmente a um estado de tensões equilibradas e a alguma forma de estabilidade – estabilidade que será outra vez perturbada no curso do tempo quando novas forças frescas emanarem na manifestação e introduzirem novos fatores para propiciar o necessário ajustamento.

É esse estado de estabilidade – produzido pelas forças inter-atuantes quando agem e reagem e chegam a um equilíbrio – que é a base da forma, como é exemplificado no átomo, que é nada mais, nada menos, do que uma constelação de elétrons, cada um dos quais é um vórtice ou um remoinho.  É a estabilidade assim obtida – a qual, note-se, é uma condição a não uma coisa em si – que os cabalistas chamam de Binah, a Terceira Sephirah.”

“Sempre que existe um estado de tensões inter-atuantes que produzem a estabilidade, os cabalistas referem esse estado a Binah.”

Aí chegamos ao ponto que nos explica ser Xangô o Chefe, o Patrono da Umbanda.

A Umbanda, assim nasceu e assim é, formada basicamente por uma coletânea de dogmas Católicos, Kardecistas, Africanos e Indígenas, que co-existiam aqui desde o século XIX.

Notaram que destaquei várias vezes no texto da Dion Fortune a palavra estabilidade? Pois bem, é sob a égide de Xangô que estes diversos dogmas encontram a estabilidade na Umbanda.  Por isso é dito que Xangô é o Chefe da Umbanda, é sua força que mantém estabilizadas a tensões dos diferentes dogmas que compõem a Umbanda.

E a Justiça?

Não é necessário alongar muito o texto para entendermos a relação:

balanca2Enquanto estabilidade é a qualidade de estável (que mantém o equilíbrio, não varia e permanece no mesmo lugar durante muito tempo), pode-se considerar a justiça como um conceito abstrato que se refere a um estado ideal de interação social em que há um equilíbrio razoável e imparcial entre os interesses.  Na verdade, sob a luz da cabala, a justiça de Xangô se refere, em primeira instância, a este equilíbrio, ou estabilidade com que convivem todos os dogmas da Umbanda.

Xangô é a estrutura que fornece à Umbanda uma base segura, emanando além da Justiça, o firme Fundamento da Fé.

Kaô Kabecilê Xangô, o chefe da Umbanda!

 

¹ Sepher Yetzirah, o livro da Criação ou Formação.

² Superconsciente: Que ultrapassa o limite da consciência. sm Filos Plano da consciência, situado acima do consciente. Antôn: subconsciente.

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livro consultado: A Cabala MísticaDion Fortune